Bancárias e bancários de todo o Brasil reuniram-se nos dias 3 e 4 de setembro (sexta e sábado) em torno dos debates da sua 23ª Conferência Nacional. Durante a abertura das atividades foi exibido um vídeo com homenagem aos bancários e às bancárias vítimas da Covid-19 e falecidxs por outras causas durante a pandemia, representadxs por sindicalistas que compunham o Comando Nacional, com sua trajetória relembrada com a fala de familiares que causou grande comoção à audiência.

Na sequência, houve falas dxs representantes com assento no Comando Nacional ligadxs às diversas forças e correntes que compõem a vitoriosa organização da categoria bancária.

Juvandia Moreira, presidenta da Contraf-CUT, convocou a audiência a tuitar a hashtag #VidaéLuta, lema da Conferência. O assunto entrou no trending topics nacional, permanecendo entre os assuntos mais comentados no Twitter até o fim do evento, por volta das 22:30h.

A abertura oficial foi finalizada com um vídeo do ex-presidente Lula, que saudou a organização da categoria bancária e conclamou trabalhadores e trabalhadoras a não perder a esperança e se manterem firmes na luta pela reconstrução do Brasil plural e democrático para todas e todos.

 

Apresentação de pesquisas

Os debates da 23ª Conferência Nacional foram retomados na manhã do sábado com a apresentação de estudos científicos que buscam orientar a estratégia de luta pela preservação e pelo avanço dos direitos da categoria bancária. O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) divulgou uma pesquisa sobre o panorama do emprego no setor financeiro e que trouxe dados como o aumento de bancárixs no setor de TI; aumento das Fintechs; aumento de empregadxs bancárixs não sindicalizados e expansão das cooperativas de crédito.

Em seguida foi apresentada da 2ª Pesquisa sobre Trabalho em Home Office, que trouxe dados levantados sobre problemas com o conforto no teletrabalho; anseio por receber auxílio financeiro por parte dos bancos em razão da elevação dos custos por trabalhar em casa e indefinição quanto ao cenário da organização do trabalho após o Home Office.

Finalizando a parte dos subsídios científicos houve a apresentação de resultados da pesquisa sobre Sequelas Covid-19 Unicamp/Contraf – Papel dos Bancos nos Casos de Suspeita de Contaminação. O documento trouxe informações colhidas sobre a incidência de contaminação por Covid em razão da função, fadiga mental, estresse, capacidade laboral após a Covid, e indicativo de persistência de sintomas da Covid.

Interagindo no bate-papo, os delegados e as delegadas, representantes de sindicatos e federações do Brasil inteiro em número recorde nesta 23ª Edição da Conferência Nacional dxs Bancárixs, relataram suas experiências locais e trocaram ideias sobre as informações colocadas pelos palestrantes durante o evento.

Delegadxs e palestrantes abordaram a necessidade de ampliar a representação dos sindicatos, incluindo trabalhadores e trabalhadoras que estão sendo incorporados no ramo financeiro em outras instituições que não estão oficialmente amparadas pela representação dos Sindicatos dxs Bancárixs.

A presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, Ivone Silva, salientou a importância de fortalecer a luta pela regulamentação legal do teletrabalho, a fim de trazer garantias de trabalho digno e reduzir a exploração por parte dxs empregadores.

Sistema Financeiro Nacional

Com o tema “Que SFN o Brasil Precisa?” a segunda mesa de debates contou com a participação de Ivânia Pereira (CTB/PB), Ana Stela Alves de Lima (SEEB Campinas), Luiz Gabriel Almeida Velloso (secretário Geral do Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo) e Antônio Fermino (presidente do SEEB Curitiba), sendo xs palestrantes a economista e pesquisadora Fernanda de Freitas Feil, do Grupo de Pesquisa sobre Finanças e Desenvolvimento (Finde), e o economista e professor titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Ladislau Dowbor.

A professora Fernanda apontou a desfuncionalidade do SFN, afirmando que as instituições privadas são voltadas exclusivamente para o lucro e não para o benefício à sociedade. Quanto mais as instituições emprestam, maior a capacidade de gerar desenvolvimento e empregos. No entanto, este papel não é cumprido pelas instituições privadas no Brasil.

Segundo a palestrante, deve haver a intervenção do Estado para garantir o desenvolvimento social. “O Estado deve atuar como indutor do desenvolvimento, tendo por princípios a obtenção de um país que contribua para a construção de um mundo socialmente justo, mais igualitário e ambientalmente sustentável. Nosso maior desafio, como sociedade global, seria a necessidade de manter a existência da raça humana, sendo para isso necessário o combate às mudanças climáticas através da regulação do processo produtivo e do padrão de consumo”.

O Acordo de Paris 2015 foi um dos temas abordados pela painelista, que falou da importância da modificação do padrão de processos produtivos para um modelo sustentável. Segundo ela, a mudança tem que ocorrer rapidamente para evitar a elevação da temperatura ainda na década de 20 e este esforço deve se dar de forma cooperativa e global”.

A palestrante inferiu ainda que as resoluções do Protocolo de Kyoto foram baseadas em uma abordagem de mercado e por isso se mostraram impotentes para encarar o desafio de enfrentar as mudanças climáticas. Desta forma, o desafio só pode ser devidamente superado se houver a implantação de uma lógica de gestão de recursos diferente da lógica privada.

O professor Ladislau Dowbor iniciou sua fala afirmando que quem deve ser educado em finanças é quem fornece o crédito e não quem o toma. Segundo o palestrante, a taxas oficiais de juros, como a Selic, são negativas no mundo, mas no Brasil ela é positiva e disfuncional. Para ele, não há solução para a categoria bancária se não houver um remodelamento do SFN, fazendo com que o mesmo contribua para a construção de uma sociedade que funcione, estruturando-a sobre uma base tripla – sociedade economicamente viável, mas socialmente justa e ambientalmente sustentável.

“O sistema financeiro mundial como está hoje estruturado está destruindo o planeta”, afirmou o professor Ladislau.

O aumento da população mundial traz a necessidade de implementação de uma maior capacidade produtiva. O dinheiro não é dos bancos, é dos clientes e da população, segundo o painelista.

Ladislau estatuiu que o artigo 192 foi liquidado por uma ofensiva dos banqueiros. A agiotagem no Brasil hoje é generalizada e os juros no país são escorchantes. Os bancos privados ampliaram lucros em mais de 100% nos últimos 12 meses.

O Brasil, segundo o professor Ladislau, não tem problema de recursos. O PIB do Brasil per capita é mais de R$11 mil, mas há pessoas que vivem em absoluta miséria. “Temos que redirecionar os recursos que existem”, pontuou.

O palestrante fez a denúncia do rentismo informando que a aplicação de $ 1 bilhão a 5% a.a rende R$ 137 mil por dia, o que caracteriza o efeito bola de neve. Ele reforçou que 42 bilionários aumentaram fortuna em 34 milhões de dólares durante a pandemia, sem pagar um centavo de imposto.

Brasil sem Desigualdades

AA presidenta da Fetrafi-MG, Magaly Fagundes, participou da mesa que teve como palestrantes a ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello, e a presidenta do Instituto Justiça Fiscal, Maria Regina Paiva Duarte, participaram da mesa Brasil sem Desigualdades

Segundo a ex-ministra do Governo Dilma Rousseff “é preciso parar de naturalizar a desigualdade em detrimento da glorificação da meritocracia”. Ela reforçou que é preciso enfrentar as questões ligadas ao preconceito de classe, de raça e de gênero para que o Brasil tenha desenvolvimento sustentável. “Queremos direitos iguais para todxs”, afirmou.

Tereza afirmou que houve distribuição de renda entre 2002 e 2015, com crescimento maior da renda dos mais pobres, tendo sido este processo revertido entre 2015 e 2019, com perda de renda entre os mais pobres e aumento da renda dos mais ricos.

“A desigualdade tem muitas facetas além da renda. Para combatê-la é necessário colocar os desfavorecidos no orçamento e os ricos no imposto de renda, como diz o presidente Lula”, lembrou.

A palestrante demonstrou através de gráficos que houve um processo de inclusão durante os governos progressistas, com mais acesso à educação por parte dxs jovens negrxs e acesso à água pelos mais pobres. Esse processo, que apontava para obtenção da igualdade de acesso, foi interrompido com a mudança da orientação política do Governo Federal. A destruição de políticas públicas voltadas à segurança alimentar levou mais de metade da população brasileira a uma situação de não saber se terá o que comer no dia seguinte.

“Se em pouco tempo é possível reverter indicadores tão dramáticos de desigualdade, com um governo que se sustente e que tenha compromisso com essa política de inclusão é possível fazer muito mais”, encerrou a ex-ministra.

Para Maria Regina Paiva Duarte, o sistema tributário pode e deveria contribuir para uma situação de maior justiça social. Segundo ela, os 10% mais ricos concentram 41,8% da renda e os 10% mais pobres apenas 0,57% da renda. O Brasil é um dos cinco países mais desiguais do mundo. Cerca de 0,01% detém 13% da renda e contribui com apenas 3% de impostos.

“O sistema tributário progressivo seria uma ferramenta de redistribuição de renda. É preciso incluir os ricos no Imposto de Renda. Até o FMI está indicando a necessidade de tributar os ricos. O que fomenta a economia não é o dinheiro estocado, mas a capacidade de consumo”.

Maria Regina afirmou que a justiça social não pode ser alcançada somente através de programas sociais, mas também através do sistema tributário. “O tributo sobre o consumo é aprofundador da desigualdade. Pobres pagam mais impostos que os ricos. Não basta repetir essa informação, mas usá-la para mudar essa realidade”.

Segundo a presidenta do Instituto Justiça Fiscal o Brasil é um paraíso para as rendas do Capital e um inferno para o trabalhador e a trabalhadora. Ela defendeu a realização de uma campanha tributar os super ricos.

Brasil sem Desigualdades

A última mesa de debates da 23ª Conferência Nacional das Bancárias e dos Bancários foi composta pela presidenta nacional do PT, Gleisi Hoffman, pelo coordenador do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), Guilherme Boulos, e pelo deputado federal, Orlando Silva (PCdoB-SP).

Boulos iniciou sua intervenção afirmando que o Brasil vive a maior crise desta geração. Ele citou a crise sanitária, tragédia da pandemia com a tragédia econômica, o aumento exponencial de desempregados e pedintes por todo o país e o pior nível de investimento dos últimos 50 anos. Segundo ele, no pior momento de seu governo, Bolsonaro começa a ficar desesperado e reage ao desespero com ameaças e ataques.

“Não é simplesmente esperar até 2022. Não podemos esperar sabendo do nível de instabilidade institucional. Temos que pressionar nas ruas. Não podemos esperar sentados. É preciso ter muita unidade política. É preciso deixar diferenças e buscar unidade em relação ao que nos une para enterrar de uma vez por todas o Bolsonaro”.

E lembrou que o Brasil de hoje não é o mesmo de 2002. “Lula pôde fazer políticas sociais sem fazer reformas orçamentárias. Vamos ter que colocar o dedo na ferida e discutir uma reforma tributária para financiar a reconstrução, seja com tributação progressiva, seja com expansão monetária. Precisaremos ter ousadia para avançar em direitos, gerar empregos e fazer reformas estruturais”.

O dirigente nacional do MTST encerrou sua participação elencando duas tarefas prioritárias: “derrotar Bolsonaro e esperançar”. E conclamou a todas e todos a participarem do “7 de setembro nas ruas sem medo”.

Para o deputado federal Orlando Silva é preciso promover um “pacto em torno de reformas estruturais no nosso campo político. É preciso ter convicção das mudanças que precisamos fazer”.

Ele reforçou que “o povo tem que caber no orçamento para avançarmos. Precisamos ganhar o governo e implementar nosso projeto. Não podemos cometer erros como os que foram cometidos ao permitir que direitos trabalhistas fossem suprimidos”.

O parlamentar defendeu a construção de uma Frente Ampla para derrotar Bolsonaro, inclusive com adversários históricos. Para ele é necessário unir a luta política e luta sindical. “Quem ainda não participou da luta tem que tomar partido e agir sobre a realidade. É preciso ter estratégia para enfrentar a burguesia no coesionamento que eles provavelmente terão em torno dos interesses do capital. Bancários podem contribuir no trabalho intersindical e na luta popular”.

De acordo com Gleisi Hoffman para entender a desigualdade no Brasil é preciso uma abordagem histórica. Ela afirmou que o nosso desenvolvimento foi feito com base na escravidão e nunca levou em consideração o povo brasileiro.

“Por isso a dificuldade de desenvolver um projeto que transformasse o Brasil verdadeiramente em um país. Getúlio Vargas inaugurou a tentativa de implementação de um projeto nacional. Mas historicamente fomos dirigidos por governantes que nunca quiseram um projeto de inclusão. Lula foi o primeiro presidente ligado ao povo em sua origem”.

A dirigente nacional do PT afirmou que “a maioria do povo é negra, é mulher e é pobre”. Durante os 13 anos de governo buscamos amenizar o sofrimento do povo minimamente não foi suportado pela burguesia. Além do golpe contra Dilma, houve a perseguição a Lula e à política que resultou na eleição de Bolsonaro.

“Bolsonaro não fala de povo, mas de enfrentamento às instituições e ódio. Caberá ao nosso campo político e a Lula resgatar a esperança do povo brasileiro. Nossa responsabilidade é muito grande”.

Ela também defendeu a presença do campo democrático popular nas ruas no próximo 7 de setembro. “Não podemos ter medo. A retórica do ódio não pode nos intimidar. Grito dxs Excluídxs existe há 27 anos. Nosso campo político tem que defender a democracia”.

Gleisi disse ainda que o movimento sindical tem um papel fundamental para resgatar o projeto que começamos a implementar em 2003. “Além de lutar pela categoria, temos que ajudar a construir uma nova realidade para o Brasil. Estar junto do povo é essencial”.

A 23a Conferência Nacional dos Bancários e das Bancárias foi finalizada com a votação das propostas encaminhadas pelas Conferências Estaduais de Bancários e Bancárias realizadas em todo o país na fase preparatória do evento nacional, assim como de diversas moções com conteúdo político e de organização da luta de consenso da categoria bancária.

Da redação da Fetrafi-MG