Sancionada pela presidenta Dilma Rousseff em 2011, a Lei 12.519 que instituiu o Dia da Consciência Negra – 20 de novembro – marca em todo território nacional a luta de gerações de afro-brasileiros por igualdade, por respeito e pelo o direito à vida.

A data foi escolhida por ter sido o dia da morte do líder negro Zumbi e hoje estende-se, através de uma série de ações, ao longo de todo o mês de novembro.

Dez anos após a sua oficialização, as reflexões sobre o mês da Consciência Negra no Brasil apontam para um cenário marcado por retrocessos sociais e políticos. Segundo o secretário de Combate ao Racismo da Contraf-CUT, Almir Aguiar, a desigualdade brasileira tem cor. “As estatísticas têm mostrado o quanto grande parcela da sociedade e instituições são racistas e cruéis com a maioria da população desse país, que são os pobres e negros”.

Em entrevista para o site da Fetrafi-MG, Almir – que também é militante do Movimento Negro Unificado (MNU) e membro do Coletivo Estadual de Combate ao Racismo PT/RJ – falou ainda sobre o agravamento das condições de vida da população negra durante a pandemia da Covid-19, a necessidade de desenvolvimento de políticas públicas para as negras e os negros e as lutas da categoria bancária diante de um sistema financeiro excludente e preconceituoso.

Acompanhe:

Fetrafi-MG: Este ano o mês da Consciência Negra no Brasil é marcado por uma série de retrocessos políticos que atingem mais duramente a população negra do nosso país. Quais são as principais bandeiras e lutas que marcam as lutas do movimento negro em 2021?

Almir Aguiar: Em primeiro lugar, quero agradecer o espaço para falar do tema. Acredito que os pontos mais relevantes para população negra são o respeito e a vida. Vivemos num momento de turbulência política. As estatísticas têm mostrado o quanto grande parcela da sociedade e instituições são racistas e cruéis com a maioria da população desse país, que são os pobres e negros. A violência policial tem como alvo principal o jovem negro. As balas perdidas acham sempre as crianças negras. A cada 100 homicídios nesse país, 73% dos que perdem a vida são jovens negros. A violência contra a mulher, o feminicídio, atinge em cheio as mulheres negras. Precisamos dar um basta nessa situação. É impossível que um homem negro presida a Fundação Palmares atuando como um capacho desse governo, fazendo o papel de um capitão do mato.

 

Fetrafi-MG: A pandemia da Covid-19 e as crises sanitária e econômica que se instalaram no Brasil a partir de 2020 agudizaram e desnudaram diferenças históricas entre as populações negra e a população não-negra brasileira. Quais são os principais impactos da atual crise sanitária e econômica na vida da população negra brasileira?

Almir Aguiar: A crise sanitária trouxe à baila, mais uma vez, essa discussão das desigualdades sociais e raciais no Brasil.

O negacionismo e a política econômica do presidente Bolsonaro ceifaram as vidas de mais de 600 mil pessoas.

É certo que a desigualdade tem cor; afinal uma quantidade monumental de pessoas e famílias vivem em condições precárias nas favelas em todo país, sem saneamento, em espaços muito pequenos e sem a menor estrutura. Para agravar essa situação, são mais de 14 milhões de pessoas desempregadas e sem direito a uma alimentação adequada. Enquanto isso, os que os bancos lucraram bilhões, fecharam várias agências e demitiram muitos trabalhadores. A população negra está na base da pirâmide dessa sociedade em que centenas de pessoas ficaram milionárias e os ricos ainda mais ricos, nessa crise econômica e sanitária. Com isso, a população mais vulnerável é a que mais sofreu, e ainda sofre, nessa pandemia. Uma consequência desse país racista e desigual.

 

Fetrafi-MG: Quais são os caminhos para superar esses impactos?

Almir Aguiar: Precisamos, na verdade, de um governo que crie condições de termos uma sociedade inclusiva, em que as instituições funcionem de verdade, e de um governo que respeite seu povo. Uma política econômica que pense nas pessoas em primeiro lugar. Hoje, um auxílio emergencial de R$600 é o mínimo, pois mais de 84 milhões de pessoas estão com fome ou vivem em insegurança alimentar. Um absurdo! É necessário o fortalecimento do SUS, salário digno, emprego. Se for de interesse termos uma sociedade mais justa e igualitária, teremos os caminhos da superação, mas com certeza não será com esse governo.

 

Fetrafi-MG: Contextualize, se possível, a luta do movimento negro em Minas Gerais.

Almir Aguiar: É importante dizer que Minas tem uma população negra muito grande. No Censo de 2010 o estado tinha 15.731.961 habitantes, e 53,5% se autodeclararam pretos ou pardos. Veja o tamanho dessa população! Com isso, é possível entender a força da contribuição do movimento negro no estado de Minas Gerais e na luta antirracista. O povo negro tem sido importante e o protagonismo dos mineiros nas lutas por avanços e igualdade raciais são claramente reconhecidos. Nomes importantes que deram de alguma forma sua contribuição nessa luta passam por Conceição Evaristo, Diva Moreira, Martvs das Chagas, Mãe Efigênia, Nilma Lino, Carolina de Jesus e muitos outros.

 

Fetrafi-MG: Fale sobre a dificuldade de acesso de negras e negros a postos de trabalho nos bancos.

Almir Aguiar: Essa é uma grande questão que precisamos resolver, o Censo da Diversidade de 2014 mostrou que somente 24,7% dos trabalhadores e trabalhadoras nos bancos eram negros e negras. Esse percentual aumentou em relação ao Censo anterior, fruto das cotas nos serviços públicos, políticas afirmativas dos governos Lula e Dilma. Mesmo assim são poucos negros e negras na categoria bancária. Isso mostra que o sistema financeiro é extremamente excludente e preconceituoso. Podemos dizer, ainda, que a cor da pele é um dificultador para a ascensão profissional. Praticamente não existem negros em cargos de direção nos bancos.

 

Fetrafi-MG: Como se dá, na atualidade, a luta de negros e negras na categoria bancária?

Almir Aguiar: A Contraf-CUT tem se esforçado na busca de soluções para essa questão. Temos nos reunido com a Fenaban através do CGROS e apresentado propostas para viabilizar as contratações. Incluímos cláusulas em nossa minuta de reivindicações e a cada dois anos temos realizado o Fórum Nacional Pela Visibilidade Negra no Sistema Financeiro, discutindo temas raciais e formando dirigentes para esse debate. Por sinal, no próximo dia 23 de novembro realizaremos, por meio online, o VI Fórum Nacional Pela Visibilidade Negra no Sistema. Ao todo, são 400 vagas.

 

VI Fórum Nacional Pela Visibilidade Negra no Sistema

Organizado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), o VI Fórum Nacional Pela Visibilidade Negra no Sistema tem como público dirigentes sindicais e assessorias responsáveis pelas Secretarias de Políticas Sociais dos Sindicatos e das Federações.

As inscrições poderão ser efetivadas até o dia 22 de novembro neste link e, após confirmadas, o (a) participante receberá, por e-mail, o acesso ao evento.