Caos econômico, retração das economias, desemprego e propagação da miséria e do desalento na pandemia. Empreendimentos estão fechando, parcela significativa da população não tem sequer o que comer. Os bancos, todavia, não têm do que reclamar.

No terceiro trimestre de 2020, Bradesco registrou lucro líquido de R$ 4,194 bilhões. O Santander, R$ 3,8 bilhões, uma alta de 88,2% em relação ao trimestre anterior. Já o Itaú engordou R$ 5,03 bilhões nos últimos três meses e R$ 13,148 bilhões nos primeiros nove meses deste ano.

Riqueza dos banqueiros, miséria de quem vive de seu próprio trabalho. O mais lucrativo banco brasileiro, só na prestação de serviços e tarifas bancárias, obtém uma receita de R$ 29 bilhões, enquanto as despesas com pessoal não chegam a R$ 18 bilhões.

Uma das estratégias para manter níveis tão elevados de lucratividade é aumentar a exploração dos trabalhadores, com demissões, contratações com salários menores e sobrecarga dos que estão empregados. Tudo em nome da “era digital” que, segundo os ideólogos do mercado, não gera desemprego, mas, agora, está sendo usada como desculpa para demitir.

Para discutir essas questões, conversamos com a bancária Magaly Fagundes, que é presidenta da Federação dos Trabalhadores do Ramo Financeiro de Minas Gerais (Fetrafi-MG). Ela também aborda as estratégias do movimento sindical para combater a precarização, a retirada de direitos e o desemprego.

BRASIL DE FATO MG – Como explicar que, no meio de uma crise econômica tão profunda e aprofundada pela pandemia, com retração do PIB em vários países, empreendimentos quebrando, desemprego, um caos econômico tremendo, os bancos tenham balanços financeiros tão lucrativos?

Magaly Fagundes – Os bancos são instituições que se sustentam mesmo em plena crise. Podem não ter crescimento, mas a lucratividade se mantém.

 

Essa lucratividade não impede que eles aumentem o ritmo das demissões. Por que isso acontece?

No início da pandemia, nós fomos a primeira categoria a sentar com os bancos, em março, e fizemos um acordo para preservar a vida dos funcionários e clientes, conseguimos colocar grupos de risco em casa, conseguimos um rodízio para que não tivéssemos agências muito cheias e houvesse um distanciamento entre trabalhadores. Nessa mesma conversa, pedimos que não houvesse demissões durante a pandemia.

A justificativa que eles tentam dar é que a pandemia antecipou em cinco anos a era digital, essa é a fala da maioria dos bancos. Porém, vimos bancos demitindo e, agora, já anunciando a contratação de novos funcionários. Então, o que avaliamos é que eles querem reduzir custos. Por qualquer serviço que alguém utilize no banco, é preciso pagar. Essas tarifas cobrem os custos da folha de pagamento e ainda sobra.

Já houve uma redução muito grande de funcionários em plena pandemia. Só no Bradesco foram  3.336 em 12 meses. O Santander demitiu, em um período de 12 meses, 2045 funcionários, sendo 1053 na pandemia. O Itaú, na pandemia, demitiu algo em torno de 600 funcionários. O que nós cobramos dos bancos foi compromisso social, compromisso com seus clientes, com o crescimento econômico do país.

 

Fale um pouco mais sobre as medidas que a Fetrafi está tomando para defender os empregos dos trabalhadores.

Estamos mobilizados nacionalmente através da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), das federações estaduais e dos sindicatos desde o início das demissões. Realizamos mobilizações virtuais semanais nas mídias sociais, publicação de notas e paralisações de agências. Essas ações vão continuar até que os bancos interrompam as demissões e reintegrem os trabalhadores desligados. Por exemplo, assim que o Bradesco anunciou o fechamento de agências, chamamos o banco para negociar e sugerimos que evitasse esses desligamentos enormes. O banco simplesmente não quis conversa e disse que a decisão já estava tomada. Nós, então, fizemos paralisações, denúncias em rádio e tiramos um dia nacional de lutas.

Nossa luta é para preservar os empregos. Há pessoas desligadas que estavam adoecidas, em tratamento de câncer, hospitalizadas e com estabilidade de pré-aposentadoria. A atitude que os bancos estão tomando, depois de junho, aumentando as demissões, é de um total descaso com o trabalhador e nós não iremos aceitar.

 

As empresas estão se aproveitando do contexto de pandemia para retirar direitos dos trabalhadores?

Sim. O governo fez um acordo com redução de salários, afirmando que seria para preservar empregos, mas não estamos vendo isso acontecer. Bancos demitiram e estão contratando novos funcionários para colocá-los no teletrabalho. Então, os bancos vêm com a desculpa de que a pandemia antecipou a era digital, forçando a ajustes.

 

Mas, quando o banco diz que, com as demissões, está se adequando à era digital, que teria sido antecipada pela pandemia, ele acaba por reconhecer publicamente que as mudanças para o digital estão desempregando. Isso desmente o discurso dos próprios bancos?

Com certeza! O Bradesco está demitindo na proporção em que dissemos, mas está comprando outro banco na Flórida [o BAC Florida Bank]. Então, a redução de quadros não se dá em virtude de uma suposta crise financeira, haja visto os lucros do último trimestre. Não há uma justificativa, a não ser mais e mais lucros e a conivência do governo, que não fez nenhuma política séria para proteger os trabalhadores.

 

E qual o papel do movimento sindical neste contexto de pandemia?

O nosso papel é preservar a vida dos trabalhadores, dos clientes, dos vigilantes. E, além disso, cobrar a não demissão, que os trabalhadores demitidos sejam reintegrados. Nesta crise mundial, nada justifica demitir assim, os balanços dos bancos demonstram isso. Este momento é realmente muito difícil, precisamos estar unificados, fazendo nossos atos e resistindo.

 

Reportagem Walace Oliveira

Fonte: Brasil de Fato