Em matéria publicada nesta quarta-feira (29), o jornal Tribuna de Minas, da cidade de Juiz de Fora, na Zona da Mata, denuncia as condições de trabalho que dezenas de bancárixs da CAIXA, estão sendo submetidos para atender a população durante a pandemia da Covid-19.

Em entrevista ao jornal a vice-presidenta do Sindicato dos Bancários e diretora da Fetrafi-MG, Lívia Terra afirma que o governo federal não dá condições para a eficiência do trabalho. “As condições de trabalho dos próprios funcionários está desumana. Da mesma forma que a população está sofrendo nas filas, os empregados também estão sofrendo com a demanda. Uma das angústias dos empregados é não conseguir operacionalizar de fato o atendimento, porque ele foi todo planejado para ser feito remotamente, mas o sistema não funciona.”

Confira a íntegra da reportagem:

 

Bancários apontam más condições de trabalho para atender população

“Recebemos moradores de rua que não têm R$ 0,20 para tirar cópia. Tem gente que chega passando fome e chora ao sacar o dinheiro. Além do cansaço mental e físico, temos uma carga psicológica muito grande ao ajudar e conhecer as histórias dos clientes que vêm sacar o auxílio emergencial”, relata à Tribuna a funcionária de uma das agências da Caixa Econômica Federal (CEF) de Juiz de Fora, cujo nome será mantido em sigilo. Ao lado de apenas 11 colegas, ela atendeu a cerca de 400 cidadãos, nesta terça-feira (28), das 8h às 15h30, que foram à agência sacar o auxílio emergencial de R$ 600. Em meio ao calendário de pagamento da primeira parcela do benefício, os funcionários da Caixa enfrentam dificuldades para atender aos cidadãos diante de quadros reduzidos pelo isolamento social, horas extras diárias, jornadas aos sábados e aos feriados e, sobretudo, falhas da própria instituição ao operacionalizar o repasse.

Embora a demanda seja majoritariamente de beneficiários do auxílio emergencial, a atenção é dividida ainda com integrantes do Bolsa Família e pessoas em busca do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e seguro-desemprego. E há a perspectiva de o calendário de saque do PIS/Pasep entrar em vigor em maio. “Como estamos no período de isolamento, os colegas que têm algum fator de risco estão em casa e a gente segue uma determinação de trabalhar com 70% da equipe em home office e apenas 30% na agência. O número de clientes aumentou muito. Hoje (terça), eu paguei FGTS para uma senhora que veio de Humaitá, que chegou na fila às 9h. Ela foi demitida. Eu consegui atendê-la somente às 15h.” Em busca de evitar aglomerações, a Caixa tem limitado o número de clientes simultaneamente dentro das agências. E, como a procura é alta, os cidadãos têm passado horas nas filas ao lado de fora dos estabelecimentos. Muitos deles, inclusive, sem máscaras de proteção.

As horas na fila têm levado os cidadãos à ansiedade e ao estresse. Na agência da Caixa lotada no cruzamento da Rua Halfeld com a Avenida Getúlio Vargas, por exemplo, a Polícia Militar interveio, nesta quarta, em três ocorrências de tumulto. Ao fim do expediente dos bancários, muitas pessoas nem atendidas são. Além do efetivo reduzido, o acesso ao aplicativo “Auxílio emergencial”, da própria CEF, é o principal gargalo para o atendimento, conforme a funcionária. “Quem não conseguiu receber o auxílio em uma conta poupança ou uma conta corrente – o que foi a maioria dos casos -, teve que ir à agência para sacar o dinheiro em espécie. Foi aberta uma conta virtual para todo mundo que não tinha uma conta física ou, então, cuja não foi localizada”, explica. “O cliente pode acessá-la e ver o valor que foi disponibilizado. Ele tem três alternativas: pagar contas, transferir para outra conta ou gerar um código para sacar na loteria ou no caixa eletrônico. Só que o código expira em duas horas. Então, não adianta gerar o código de madrugada – horário em que o aplicativo está acessível – porque o cliente precisa gerá-lo quando está próximo à lotérica ou no atendimento.”

No entanto, a realidade ultrapassa a incapacidade do aplicativo em suportar tantos acessos simultâneos. De acordo com a funcionária, a maioria dos cidadãos atendidos não têm celulares, e, quando têm, estes não têm acesso à internet. “A maioria nem tem celular, ou então tem celular de modelo antigo e não tem internet. Eles não conseguem entrar no aplicativo, porque, quando entram, a opção é transferir o dinheiro para alguma conta ou direcioná-lo para o saque em alguma loteria. A maior parte dos clientes não tem instrução para mexer no celular. Paramos um por um, olhamos a situação do cliente e, dependendo do caso, usamos o nosso próprio celular, a nossa própria internet, para ajudar o cliente. Isso tudo na rua, porque não tem condições de todo mundo entrar na agência.” A tendência é que a demanda aumente, uma vez que, nesta quarta, já serão atendidos beneficiários nascidos entre maio e junho, além dos nascidos entre janeiro e abril que ainda não sacaram o auxílio.

 

Ampliação de serviços

Em nota, questionada pela Tribuna, a Caixa cita a ampliação de serviços digitais e remotos para atender à população, apesar de, como ressaltado, a maioria dos beneficiários carecer de acesso a estes serviços. “Os clientes podem fazer a movimentação de valores por meio do internet banking e mobile banking e foi ampliado o atendimento em canais remotos, como a “Agência Digital”, telesserviço e SMS. Desde o dia 23 de março, foi aumentado para R$ 5 mil o limite de transferências eletrônicas entre contas da Caixa em todos os canais, além da possibilidade de aumento do limite das transações através do mobile banking para até R$10 mil.” No entanto, a instituição financeira não respondeu os questionamentos sobre o número de funcionários do quadro em Juiz de Fora, tampouco sobre o esgotamento de atendimento e a ausência de rodízios.

 

‘As condições estão desumanas’

Em Juiz de Fora, as agências com maiores dificuldades e limitações são a já citada – entre a Rua Halfeld e a Avenida Getúlio Vargas -, a da Rua Marília, em Benfica, e a da Avenida Presidente Costa e Silva, em São Pedro, conforme a vice-presidente do Sindicato dos Bancários, Lívia Terra. “As condições de trabalho dos próprios funcionários está desumana. Da mesma forma que a população está sofrendo nas filas, os empregados também estão sofrendo com a demanda. Uma das angústias dos empregados é não conseguir operacionalizar de fato o atendimento, porque ele foi todo planejado para ser feito remotamente, mas o sistema não funciona.”

De acordo com Lívia, em um primeiro momento, a entidade conseguiu o afastamento de funcionários do grupo de risco do atendimento. No entanto, como alega a vice-presidente do Sindicato dos Bancários, o Governo federal não dá condições para a eficiência do trabalho. “Ficamos até honrados de servir neste momento de necessidade. Todos os empregados têm a noção desta importância. Mas, como te disse, a empresa não tem dado condições para isso ser feito, nem o Governo. O Governo deveria descentralizar o atendimento. (…) Hoje, não acredito que haja uma forma de corrigir todos os problemas a não ser a descentralização do pagamento, o que poderia ser feito pelo próprio Ministério da Cidadania para mobilizar outros bancos e outras instituições, como as prefeituras, para nos ajudar.”

Lívia relata que funcionários da CEF têm indicado que estão apenas “enxugando gelo”, já que vão às filas somente para dizer às pessoas que não têm condições de atendê-las. “Os trabalhadores estão correndo o risco duplamente: com a ira justa da população, que precisa emergencialmente do auxílio, e com a exposição ao contágio do coronavírus. É muito grave. Estão correndo o risco de sofrer o contágio do vírus e de adoecimentos mentais também. Desumano. Eles não estão dando conta. Temos relatos de agências em que funcionários com jornada de trabalho de seis horas trabalham oito, por exemplo. No restante do país, há unidades que têm ficado doze horas por dia trabalhando.” A sindicalista ressalta ainda que os bancários estão solidários aos cidadãos que necessitam emergencialmente da renda. “A situação é absurda. Há uma preocupação, há uma vontade de fazer. O serviço é levado a sério. Temos muito orgulho quando somos chamados para atender à população, da nossa missão social. (…) Somos tão vítimas como todos os outros.”

 

Medidas para redução de filas

De acordo com o registrado em nota, a Caixa reforça que as agências estão abertas apenas para atendimento a serviços essenciais. “Para manter o distanciamento mínimo de um metro entre as pessoas, o fluxo de clientes está sendo controlado no interior das unidades; nas salas de autoatendimento, é permitida a entrada de uma ou duas pessoas por máquina, de acordo com o espaço físico disponível. (…) O banco também reforçou o protocolo de higienização das unidades priorizando a limpeza das superfícies de contato humano, portas de entrada, maçanetas e vidros do entorno, teclados dos terminais de autoatendimento, balcões de caixa, torneiras e aparelhos sanitários com periodicidade mínima de seis vezes ao dia.” A instituição ainda ressalta que “estão sendo alocados mais de 2.800 vigilantes adicionais, bem como recepcionistas para reforçar orientação e atendimento ao público”.

 

Fonte: Tribuna de Minas